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domingo, 3 de julho de 2011 Eleições | 10:52

Ibope mostra como Kassab deixou de ser ‘página em branco’

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O prefeito Gilberto Kassab (Foto: Vanessa Carvalho/AE)

Como os programas eleitorais contribuíram para que o afilhado político do ex-governador José Serra, o até então democrata Gilberto Kassab, fosse eleito prefeito de São Paulo em 2008? O Ibope responde esta e outras perguntas no estudo Os programas eleitorais importam?, que será divulgado nos próximos dias.

A analista de pesquisas do instituto Fernanda Rosa acompanhou 57 programas da campanha à prefeitura de São Paulo de 2008. Ela se debruçou sobre as inserções do 1º turno de Kassab, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marta Suplicy (PT). É a primeira vez que o Ibope faz esse tipo de estudo.

Segundo Fernanda, em três meses de programas, a desvantagem de Kassab, que “era uma página em branco”, por não ser tão conhecido da população, foi convertida.

Como? “Os três candidatos tinham as mesmas propostas, mas o Kassab conseguiu se sobressair porque soube usar aspectos de sedução, de carisma e de ataque. Ele era uma página em branco e construiu sua imagem com os programas de televisão”, explicou ela ao Poder Online.

Poder Online – Podemos afirmar que o prefeito Gilberto Kassab, que começou a disputa em 3º lugar, foi eleito com 61% dos votos, no segundo turno, por causa dos programas eleitorais?

Fernanda Rosa – Não podemos afirmar que foi por causa dos programas eleitorais que o Kassab ganhou as eleições. Como só estudei os programas eleitorais, não tenho como dizer que os outros elementos da campanha eleitoral não contribuíram para ele ganhar. É claro que é muito visível que ele começa a crescer nas pesquisas quando começam os programas. Mas ele também estava nas ruas, no rádio. Existem outros elementos que também contribuíram para a vitória. O ideal é falar como o programa eleitoral contribuiu para que ele ganhasse.

Poder Online – E como contribuíram?

Fernanda Rosa – Foi uma conjunção de fatores. O Kassab usou mais aspectos emocionais na campanha do que o Geraldo Alckmin e a Marta Suplicy. Tinham, por exemplo, médicas chorando, pessoas agradecendo pelos CEUs, pelas AMAs. Ele usou mais carisma. Muito mais do que os outros. Para passar a imagem de que era amado, bem quisto. Ele também fez mais ataques e se comparou mais com os adversários.

Poder Online – Ele tinha elementos para isso? Já que não era tão conhecido e estava à frente da prefeitura só há dois anos, desde que o ex-governador José Serra havia deixado o cargo para disputar as eleições de 2006.

Fernanda Rosa – O Kassab era uma página em branco. A Marta era ex-prefeita com grande apoio na periferia, mas com uma rejeição muito forte nas classes mais altas. O Alckmin era um ex-governador com renome, que era lembrado. O Kassab não tinha muitos problemas porque não era conhecido. E ele se apropriou de tudo que Marta tinha feito. Usando um discurso de que “bom prefeito é aquele que dá continuidade a coisas boas”, ele começou a divulgar as ações da Marta. E ela ficou sem discurso porque era o Kassab quem falava do CEU, do Bilhete Único e de todas as coisas que ela tinha feito.

Poder Online – O estudo também mostra que o Kassab conseguiu se sobressair porque soube usar a sedução e o carisma.

Fernanda Rosa – Os três candidatos tinham as mesmas propostas, mas o Kassab conseguiu se sobressair porque soube usar aspectos de sedução, de carisma e de ataque. Como não tinha nada que o depreciasse a priori, ele foi construindo uma imagem a partir de uma apropriação das políticas que já tinham sido feitas e usando o discurso de continuidade e de aperfeiçoamento dessas políticas. A quantidade de ameaças que ele fazia também contribuiu bastante. O discurso que embalou a campanha de Kassab foi “está bom, então por que mudar? Alguém que fez tudo isso em dois anos fará muito mais em quatro”. Nesse aspecto, com certeza o programa de televisão construiu a imagem dele.

Poder Online – Como surgiu a ideia de analisar os programas eleitorais?

Fernanda Rosa – Durante as eleições, a principal ferramenta para nós que trabalhamos em institutos de pesquisas são as pesquisas de opinião. São elas que nos fazem entender o contexto eleitoral. Com esse estudo, a ideia é mostrar que é possível entender melhor esse contexto. E também mostrar que é possível fazer esse tipo de estudo durante as eleições – as análises, normalmente, são feitas no período pós-eleição. Vendo e codificando os programas eleitorais de televisão, é possível fazer uma análise do que está acontecendo. É mais uma ferramenta à disposição para entendimento do contexto eleitoral, que hoje está sendo usada no meio acadêmico, mas que institutos de pesquisas não costumam fazer.

Poder Online – Essa nova ferramenta pode ser adotada pelo Ibope a partir das próximas eleições?

Fernanda Rosa – Ainda não temos nada programado. Ela pode ser usada, mas não posso afirmar que será usada porque demanda mais tempo e também uma estrutura própria para isso. Mas continuar analisando os programas de televisão é super importante porque, apesar de parecer que todas as pessoas têm acesso à internet, isso não é verdade. Grande parte da população ainda continua usando os programas eleitorais para decidir qual será o seu candidato.

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