Publicidade

domingo, 20 de novembro de 2011 Brasil | 06:02

“Acidente da Chevron aumentará os custos de exploração de petróleo no mar”

Compartilhe: Twitter

A despeito da causa do vazamento de petróleo no Campo de Frade, explorado pela Chevron, que está sendo investigado pela Polícia Federal, o acidente ecológico permite, desde já, uma conclusão nada promissora para o futuro do pré-sal. “O acidente da Chevron aumentará  os custos de exploração de petróleo no mar”, afirma Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Nesta entrevista ao Poder Online, Pires defende uma legislação transparente, a qualificação de pessoal e de organismos de fiscalização para o país tornar a extração de petróleo – tão festejada pela classe política como a salvação da pátria, depois da descoberta da camada pré-sal – promissora e com menos riscos ao meio ambiente.

Poder Online – De acordo com a forma como os governos estão tratando a questão da exploração de petróleo, qual a análise que já pode ser feita diante de tal acidente com a Chevron?

Adriano Pires –  A primeira lição que se pode, preliminarmente, tirar do fato é que necessitamos urgente de uma legislação transparente e órgãos qualificados para fiscalizar a exploração de petróleo. E se o acidente fosse maior e provocasse um impacto em Cabo Frio e Búzios [paraísos ecológicos da região do Lagos, próximos ao local do acidente]? O Brasil não pode correr o risco de a riqueza ser transformada em maldição. Por outro lado, não dá para demonizar a exploração de petróleo no mar sob pena de estarmos apenas promovendo um atraso. Esse episódio não pode ser desculpa para a Agência Nacional do Petróleo (ANP) não realizar novos leilões de áreas de exploração. Em 2011, não ocorreram leilões devido à polêmica sobre a lei dos royalties. Mas a não realização de leilões interessa apenas a Petrobrás.

Poder Online – Há o risco de uma exploração política do caso?

Adriano Pires – Sem dúvida. Estão faturando do ponto de vista político. O governo Lula pregou o tempo todo que a riqueza do pré-sal resolveria todos os problemas e forjaria o Brasil Potência. Esse episódio serve para mostrar que não é tão trivial assim tirar petróleo do mar. O acidente já está sendo usado para defender esse ou aquele ponto de vista de governo. O Sérgio Cabral [governador do Rio] está colocando o caso como uma justificativa para a tese de que o estado não pode dividir os royalties porque esse ganho do Rio é uma espécie de pagamento pelo risco.  É a hora de deixar claro que o acidente não tem nada a ver com a questão dos royalties. O governador está doido para que apareça um passarinho todo sujo de óleo preto. O que precisamos é aproveitar o acidente para melhorar a legislação e os mecanismos de controle. Temos que rever a questão das multas, por exemplo, que são muito baixas. Pelo que estabelece a lei 9966 de 2000, o teto é R$ 50 milhões.

Poder Online – O que esse acidente pode impactar na performance da Petrobras?

Adriano Pires – Muito. O acidente da Chevron aumentará os custos de exploração de petróleo no mar. Portanto a projeção de exploração de 6, 7 bilhões de barris até 2020 já é duvidosa. Os números passam a ser pouco factíveis daqui pra frente. Não sabemos quais os desdobramentos que vai ter esse caso do ponto de vista de exigências. A Chevron estava reduzindo despesas, usando até equipamentos reciclados para diminuir custos. Isso continuará sendo possível? O governo pode falar é que se fosse a Petrobras não aconteceria. Mas isso é irreal. A BP [British Petroleum, responsável pelo lançamento de milhares de barris de petróleo no Golfo do México, nos Estados Unidos, em abril de 2010], depois do acidente do Golfo do México viu suas ações cairem 20%. As ações da Petrobras, nos últimos dois anos, cairam 40%. Sem nenhum vazamento. De novo: esse e outros acidentes mostram que furar petróleo no mar é uma operação de alto risco.

Poder Online – E a produção no mar tende a ser importante no caso do Brasil.

Adriano Pires –  Hoje a produção mundial é 20% no mar e 80% na terra. A produção no mar cresce mais. Logo teremos aí uns 25%, 30%. A probabilidade acidentes desse tipo tende a aumentar e a exploração vai ficar mais cara. Os últimos acidentes mostram uma negligencia das empresas e dos governos. Um país que pretende tirar quase 100% de seu petróleo do mar, portanto, precisa melhorar a fiscalização e a legislação. Nos Estados Unidos, no caso da BP,  ficou evidente que o governo havia sido capturado pelas empresas petrolíferas, a partir de um lobby fantástico – tanto na gestão George W. Bush como na de B.Obama. O equipamento usado não era adequado para aquele tipo de exploração, mas era permitido a sua utilização. Não havia plano eficiente para conter o vazamento. Não pode deixar vazar, mas se vazar é preciso ter capacidade para estancar o vazamento. Quanto a isso não existe garantia.

Poder Online – No caso do Brasil, houve uma mudança na legislação de licenças ambientais em outubro. Como vê essa alteração?

Adriano Pires – É preciso analisar bem e tecnicamente todas as mudanças. Com o cuidado de impedir a ampliação dos riscos e, por outro lado, como disse, evitar a demonização da exploração do petróleo. Isso também seria terrível para o país. Daí a necessidade de órgãos técnicos, legislação adequada e fiscalização eficiente. Não dá para explorar sem licença ambiental, como ocorreu nos poços de Libra e Franco. Mas também não podemos permitir que o setor de petróleo passe pela mesma situação do setor elétrico, onde a variável ambiental é a única a ser analisada.

Autor: Tags: , ,