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domingo, 6 de outubro de 2013 Política | 07:00

‘Esta pode ser a eleição mais dura que o PT já enfrentou’

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Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, vice-coordenador do curso de administração pública da Fundação Getulio Vargas, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, tem na filiação de Marina Silva ao seu partido algo como a fortuna citada em O Príncipe, de Maquiavel.

“Ele (Campos) ganhou de todas as formas. Ganhou musculatura que não teria sozinho, dificilmente sairia daquele índice de 4% a 7% que estava patinando nas pesquisas. Além disso, Marina será uma grande puxadora de votos para o PSB, para governadores e para o Congresso. É o que Maquiavel chama de fortuna, tudo aconteceu para Campos no momento certo, quando menos se esperava”, afirma Teixeira.

Para o especialista, o novo cenário que se forma para a eleição eleva as pressões sobre o senador Aécio Neves (PSDB) e a presidente Dilma Rousseff (PT). “Esta pode ser a eleição mais difícil que o PT já enfrentou”, afirma.
 

Leia abaixo a entrevista ao Poder Online:

Como você vê a filiação da Marina ao PSB?
É uma reviravolta no cenário. Transforma a eleição do ano que vem, não será mais plebiscitária, rompe com ciclo de PT x PSDB, que ocorre desde 1994. Transforma o debate em mais programático do que uma luta contra bem e mal, como era tratada. E, se Marina for vice, seria uma inversão do capital politico, um fato inédito, porque a pessoa que tem mais eleitor é ela. A Marina tem viabilidade eleitoral, nada garante que ela como vice traga esse capital para o Campos. Essa questão ainda precisa ficar clara.

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Como fica o cenário para o senador Aécio Neves (PSDB-MG)?
Nesse primeiro momento, o Aécio vai ter que tomar muito cuidado com as primeiras pesquisas, ele deve enfraquecer e aliança que Campos estava construindo com ele, também. É possível que ele enfrente fuga de aliados. O PPS estava apostando tirar Serra do PSDB, depois ofereceu para Marina, não deve apoiar Campos-Marina. O maior adversário político de uma chapa Campos-Marina será o PSDB. Na prática, essas duas candidaturas estarão disputando uma eventual ida para o segundo turno. O Eduardo sozinho era um candidato sem musculatura, muito mais útil do que rival. Essa aliança com a Marina o transforma em rival, o desafio vai chegar ao segundo turno.

E para Dilma?
Enfraquece a Dilma porque a Marina não é alguém que o PT vai tratar como tratou as candidaturas do PSDB no passado, alguém que ameaça políticas como o Bolsa Família. São todos contra a Dilma. Agora fica muito difícil pensar em uma vitória dela no primeiro turno. O PT conseguiu esvaziar o PSDB com o discurso que ia desde privatizações até políticas sociais. Esse discurso perde força e Campos-Marina tem penetração em setores razoáveis do PT. Essa pode se tornar a eleição mais dura que o PT já enfrentou até hoje, desde que chegou ao poder porque vai ter a capacidade de agregar oposição. Campos e Marina não terão dificuldade de atrair eleitores do PSDB num eventual segundo turno e também podem atrair os petistas ou simpatizantes do governo que estão descontentes, mas que numa eleição plebiscitária não votaria no PSDB.

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Foi uma escolha para Campos, então.
Ele ganhou de todas as formas. Ganhou musculatura que não teria sozinho, dificilmente sairia daquele índice de 4% a 7% que estava patinando nas pesquisas. E se Marina for vice, terá espaço grande no governo, ela ganhou algo que não estava no cenário. Além disso, Marina será uma grande puxadora de votos para o PSB, para governadores e para o Congresso. O PSB pode aumentar muito sua bancada. É o que Maquiavel chama de fortuna, tudo aconteceu para Campos no momento certo, quando menos se esperava.

Para a Marina foi uma escolha boa?
Ou ela adiava o que ela chama de sonho ou ela jogava o jogo da política como é, partir para ação pragmática. O PPS é um partido comprometido até o pescoço com o projeto do PSDB, não daria a ela uma movimentação muito tranquila, discurso autônomo. O PTB não teria justificativa nenhuma dela ir pra lá. O PEN é a mesma coisa de um partido que não existe, sem estrutura. Ela não tinha muito escolha, era o PSB mesmo.

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A Marina disse que exigiu que o PSB adotasse alguns pontos do conteúdo programático da Rede. Como isso pode se dar?
Esse debate terá que ser feito, mas o PSB não teve grandes governos, programas complexos, não se sabe se o conteúdo da Rede vai ter resistência ou não. Questões de desenvolvimento e como aborto, por exemplo, podem apresentar um grau de confronto. A Marina terá que fazer concessões também.

Como ficam as eleições estaduais com esse cenário?
Vai ser preciso muita negociação. Aqui em São Paulo, o PSB marcharia com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Será que isso vai ser repensado? Será que não abre caminho para o PSB pensar em candidatura própria? O PSDB vai permitir Alckmin abrir palanque para Campos-Marina e Aécio? O mesmo vale para Minas, o PSDB não decidiu ainda se terá candidatura própria ou não. O candidato dos sonhos do Aécio é o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que do PSB. É uma subversão completa do desenho estadual.

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