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domingo, 23 de novembro de 2014 Política | 08:00

‘É impossível responder qual é o maior caso de corrupção’, diz José Álvaro Moisés

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Em meio às últimas denúncias de desvio de verbas na Petrobras, investigadas pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, o doutor em Ciência Política e professor da Universidade de São Paulo José Álvaro Moisés defende que é preciso cautela ao comparar diferentes casos de corrupção.

Cientista político e professor da Universidade de São Paulo, José Álvaro Moisés. (Foto: Divulgação)

Cientista político e professor da Universidade de São Paulo, José Álvaro Moisés. (Foto: Divulgação)

“Impressionisticamente, as pessoas dizem que é o maior escândalo do país. Diziam isso na época do mensalão e agora está se dizendo isso na Lava Jato. Agora, eu não sei dizer”, reconhece Moisés, em entrevista ao Poder Online. “Nós não sabemos, porque pode ter havido, em outras épocas da vida do país, outros fenômenos maiores de corrupção e nós não estamos devidamente informados.”

O cientista político também apresenta ressalvas quanto ao discurso petista de que um fortalecimento da autonomia dos órgãos de investigação nos últimos anos teria possibilitado a vinda à tona desses casos. “A mídia deveria (…) pegar as coisas que a Dilma falou que não foram investigadas – como a Pasta Rosa, Sivam, reeleição – e ir atrás para saber o que aconteceu”, recomenda. Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Muitas pessoas têm dito que a Operação Lava Jato é o maior escândalo de corrupção dos últimos anos, que superaria inclusive o mensalão. Qual é a sua opinião sobre essa análise?
É impossível responder qual o maior caso de corrupção. Como você deve saber, não existe uma notícia clara para saber qual é maior ou menor. A sociedade não teve informação em nenhum dos dois casos. No primeiro caso, do mensalão, quando apareceu, a razão pela qual as pessoas consideravam que era o maior escândalo é porque envolveu desvio de algo em torno de R$ 170 bilhões. Você lembra disso?

Sim, havia pouca informação sobre valores reais.
Como tinha pouca informação, quando surgiu essa informação as pessoas consideraram ‘agora a situação é completamente diferente, o volume de recurso é muito maior’. E agora as pessoas tão considerando que esse provavelmente é o maior escândalo que já houve. Mas ninguém tinha informações sobre isso, nem o Ministério Público, nem a Polícia Federal, nem Controladoria-Geral da União.

O senhor acredita, então, que por essa falta de informação é inviável falar que escândalos seriam menores ou maiores?
Sim. Outra coisa que é preciso considerar é que a corrupção não é uma coisa para a qual existe uma medida clara, que seja de fácil mensuração. Por exemplo, a inflação você tem uma série de mecanismos para medir. Na corrupção você não tem isso, porque é uma coisa escondida. Ela tem no mínimo dois lados, o dos corruptores e o dos corrompidos. Os dois lados escondem informação, então não dá mensurar. Então se é maior ou se é menor, não é propriamente uma questão que se possa responder com esse grau de precisão.

Durante a campanha, a presidente Dilma Rousseff falou que, em certa medida, o que possibilitou que esses escândalos viessem à tona era justamente um fortalecimento da autonomia dos órgãos de investigação, como a Polícia Federal. O senhor concorda com essa análise?
Isso é uma coisa que, como você mesma disse, foi dita na campanha eleitoral. Na campanha, as pessoas falam muita coisa que na verdade não bate com a realidade. São invenções, frases-marketing, frases de efeito. O que eu acho que a mídia deveria fazer, se vocês quiserem levar essa história a sério, é pegar as coisas que a Dilma falou que não foram investigadas – como a Pasta Rosa, Sivam, reeleição – e ir atrás para saber o que aconteceu. Seria interessante um levantamento daqueles vários casos, para ver se houve denúncia, se foi ou não desenvolvida, se alguém mandou ou não parar. Porque, se não, fica num nível de especulação em que as pessoas podem dizer qualquer coisa, o que não significa que seja baseado em fatos.

Então o senhor também não acha que seja possível afirmar que houve um fortalecimento desses órgãos de investigação.
O que eu estou dizendo é uma coisa diferente. Todos os estudiosos desse tema falam que a corrupção é algo difícil de mensurar. Agora, impressionisticamente, as pessoas dizem que é o maior escândalo do país. Diziam isso na época do mensalão e agora está se dizendo isso na Lava Jato. Agora, eu não sei dizer se é o maior escândalo. Que efetivamente envolve uma verdadeira montanha de recursos que daria para multiplicar por dez, pelo menos, as políticas sociais, eu não tenho dúvidas. Agora, se é o maior ou não nós não sabemos, porque pode ter havido, em outras épocas da vida do país, outros fenômenos de corrupção maiores e nós não estamos devidamente informados.

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